NA VEZ EM QUE SE CHORA

jovem-homem-chorando-homem

— Deve haver alguém cozinhando lá embaixo. Ele pode estar na parte dos fundos, daí, não podemos vê-lo.

— É engraçado como você sempre faz suposições…

O olhar arguto da senhora esmaeceu. Calou qualquer comentário.

— Ah! Agora estou enxergando. Abaixo da ponte. Eles vêm descendo a estrada, a dois quilômetros do topo do desfiladeiro.

— Eles? — acolheu a velha senhora, animada.

— Talvez quatro homens e uma mulher.

— Será que são empregados do parque?

— Não dá para saber. Vou descobrir.

— Seria bom que fossem…

— Não se preocupe. Vou na frente para conversar com eles. Se forem cozinheiros, faço um sinal para que desça. Descanse aqui.

— Bem pensado, e… obrigada — disse a senhora com olhar terno. — Espero daqui o seu sinal.

*

— Não. Agora eu quero encontrar as crianças. Está na hora de alimentá-las. Seria bom se vocês dois também fossem. — O tom rascante combinava com o cenho fechado.

— Isso é fácil! — disse a senhora de forma mansa. — Do lugar para onde estamos indo, será uma descida tranquila. Você está com fome?

— Estou — disse o jovem. — Não quero comer mais tarde. Você sempre soube que gosto de horário nas refeições.

— Francisco — disse a senhora. — Deixe eu ajudar você com essa mochila.

O jovem, alto e magro, cabelos escuros, a face jovial não aparentava a idade. As duas mochilas vinham penduradas às costas dele durante a caminhada. Carregavam apetrechos para montagem das cabanas em que pernoitaram. Ele a trouxe para cima dos ombros da velha senhora. Enfiou os braços dela em cada alça e ajeitou o peso contra as costas dela.

— Pronto, já estou com ela — disse a senhora, ofegante. — Como é que chegamos até lá?

— Subindo — disse Francisco.

Suando e cansados, subiram a encosta da montanha. A subida tornou-se mais íngreme e difícil. A senhora esfalfada o esperou ao pé de um imenso granito.

— O que há? Não aguenta mais? Quando lhe digo que precisa fazer exercícios, você não me ouve.

— Tudo bem — disse a senhora. Os músculos das coxas tremiam pelo esforço da escalada.

— Espere aqui. Vou na frente. É melhor não arriscar você levar um tombo e eu ter que carregá-la e mais essas coisas.

— Nem brincando — disse a velha senhora. — Está muito longe?

— Bem pertinho.

— Francisco — o jovem a olhou. Ela estava pálida e tinha soltado a mochila.

— Então espere aqui, mãe. Eu volto para te buscar.

— Certo! — disse a senhora, suspirando. —

— Depois iremos direto ao restaurante. Será por outro caminho. Mais curto e mais fácil.

— Mas quero guardar este material dentro do chalé.

— Tudo bem. Fique aqui, enquanto vou buscar as meninas e o pai. Espero que eles já estejam prontos e trocados.

— Está bem — replicou a senhora.

Ela se sentou próximo das mochilas e ficou observando o filho subir o relevo de granito. O rapaz avançava sem muita dificuldade. A senhora podia observar o filho forte e saudável. Venceria a trilha com facilidade.

Francisco, sob todos os aspectos, exceto o do julgamento, ainda não tinha tido a chance de testar a capacidade física da mãe. Ele sequer percebera que a idade dela havia avançado; de qualquer maneira, esta era uma atitude de sua vida inteira. Não, ele não estava preocupado com a mãe, e o problema das crianças, sem alimentação no horário correto não seria o mais difícil do que muitos outros problemas aos quais precisava solucionar. Ele sabia como explodir a qualquer tipo de pressão, havia explodido a todo tempo em que se sentia acuado e ninguém sequer o recriminara.

*

— Estou numa boa posição aqui — disse a mãe. — Preciso apenas dormir um pouco. O banho me refez do calor e do cansaço de subir aquela trilha acima —, ela abriu os olhos, virou a cabeça e olhou ao longo, então a dor no corpo fechou-lhe os olhos novamente.

O filho deu um tapinha na sua cabeça e, com o polegar, sinalizou ao pai e às meninas que já podiam voltar para as piscinas.

— Vamos deixá-la descansar. Está bem alimentada e depois do banho bem relaxada. Irá dormir, como sempre. Então cuidemos de aproveitar o passeio — disse Francisco, e começou a se dirigir para a porta do chalé.

Fernando permaneceu recostado na cama.

— Vou ficar mais um pouco, até que ela ressone.— Francisco deu de ombros, pegou as mãos das crianças e saíram cantarolando.

— Fernando! — gemeu a esposa.

Fernando abriu mais os olhos e olhou para ela.

— Como está se sentindo? — perguntou afetuoso.

Ela meneou a cabeça num gesto sem explicação.

Fernando correu aos soluços para o banheiro.

O corpo de enfermagem do parque fora bastante ágil e trataram o ferimento na cabeça da mulher com os recursos que no lugar havia.

“Odeio me emocionar, mas passou. Está passando rápido e vou voltar ao normal”.

Então, olhou para a esposa estirada sobre a cama e deitou-se ao lado dela. Tomou-lhe a mão e assim dormiram os dois.

Em sua volta para o chalé Francisco encontrou os pais dormindo. Sacudiu o corpo da mãe.

O corpo inerte nem se mexeu. Mexeu no corpo do pai. Também inerte. Olhou apalermado pelo quarto sem saber que atitude tomar. Ligou para a recepção, voz estrangulada:

— Preciso de ajuda. Meus pais estão deitados e não acordam.

A recepcionista contatou um médico, também hóspede.

— Os corpos precisam ser removidos para o hospital da cidade. Lá terei condições de avaliar a causa da morte de cada um.

O médico inquiriu Francisco sobre os acontecimentos do dia anterior. Ele relatou a aventura tida com a mãe: a caminhada, sobre o cansaço materno, o desmaio, o curativo, o almoço, o banho e os cuidados do pai em relação à esposa.

— Sua mãe teve um AVC e não foi atendida a tempo e faleceu. Seu pai teve um infarto fulminante, após a emoção forte de ver o sofrimento da esposa. — Concluiu o médico. — Darei o atestado e você deve providenciar a remoção dos corpos para sua cidade.

Francisco olhou estupefato para o médico e caiu num choro convulso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s