Palavras são pássaros

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A senhora das palavras morreu aos 91 anos de idade, num sábado, 14 de fevereiro, do passado 2004. Perdeu-se a presença física da maior poeta do Paraná. Helena Kolody, uma das vozes mais doces e belas da literatura paranaense, legou a esta terra uma forma de escrever sucinta e singela sobre os sentimentos do próximo e de si mesma, como ela diz: “Quando sonho, sou outra. Inauguro-me”.

Túlio Vargas, presidente da Academia Paranaense de Letras, naquela época, esteve presente ao adeus a poeta, dizendo: “Vamos sentir muita falta de sua sensibilidade e de sua poesia profundamente espiritual”.

A habilidade com as palavras dava a Helena a naturalidade para escrever pequenos poemas de origem japonesa, como os haicais e tankas. Falou do tempo, em “Sabedoria”, lançado em 1993. “Tudo o tempo leva. A própria vida não dura. Com sabedoria, colhe a alegria de agora para a saudade futura”.

Helena Kolody fazia versos sobre as coisas comuns e sabia como ninguém manejar as palavras com síntese e beleza. Pelo poema curto, que é a identidade mais evidente da esteira poética paranaense, Helena sofreu um processo de positivação nas letras do Estado e do Brasil.

Seu início aconteceu em 1941, com “Paisagem Interior” e seu último livro, em 2002, foi “Poemas do Amor Impossível”. É a partir de Paulo Leminski que Helena Kolody se firma efetivamente nas letras brasileiras e se transforma numa versão paranaense de Mário Quintana, Cora Coralina e Adélia Prado. Foi como eles, a seu tempo e a seu modo, que a autora de poesia forte, simples, curta e lírica, calcada em sua profunda religiosidade e observação do cotidiano, deixou sua marca indelével na literatura brasileira.

A poeta também se mostra uma figura humana e generosa. Ela amava poetas bons e medíocres numa vida literária de rancores e intrigas. Foi sempre um elemento catalisador dos escritores paranaenses e tentava auxiliar a todos, com sua maneira simples e doce. Isso foi profundamente reconhecido em meados da década de 90, durante um dos muitos eventos culturais promovidos pelo antigo Banco Bamerindus do Brasil, quando o escritor e editor catarinense, Roberto Gomes, declarou: “Curitiba precisa de alguém para amar. E essa pessoa é Helena Kolody”. De fato a escritora é profundamente amada e respeitada pelos seus leitores.

O perfil físico de origem ucraniana era professoral, mas o carisma de Helena estava em sua personalidade humana e benfeitora. Todos que escrevemos, no Estado do Paraná, sentimos sua presença forte na exposição de nossa literatura. Ela não só exerceu o magistério nas escolas, mas fez escola também na literatura brasileira. Ensinou o trato com seus pares, com sua timidez e suavidade, enquanto transitava nos círculos literários nacionais. Isso não impediu que, com suas maneiras educadas e gentis, mas caráter forte, deixasse impressa sua figura emblemática e seu estilo impecável.

A poeta sabia declamar como nenhum outro escritor desta terra. Suas alunas do Instituto de Educação do Paraná, formadas nos anos 50, a distinguiam como a professora de voz e rosto iluminados. “Cada vez que dona Helena declamava uma poesia de amor, ficávamos todas curiosas, querendo saber sobre seu passado”, conta Helga Treysse Gilk, referindo-se ao lendário noivado desfeito de Kolody.

Ela era a poeta que carregava dor e sentimento, como outrora os poetas sabiam fazer. Nela desenvolveu-se este olhar e a perspectiva pela vida. A escritora sempre disse: “Palavras são pássaros, voaram! Não nos pertencem mais”. E o sentimento foi exposto de forma irreversível. Foi assim com Helena Kolody.

 

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