Quando chove

mulher-lendo-livroQuando Teresa entrou, livro na mão, um sorriso a bailar nos lábios, o encontrou no lugar de sempre.

– Poesias? – perguntou, espantado.

Esboçando um leve sacudir de ombros, ela respondeu:

– Estou tentando ler. Não foi isso que você sugeriu?

Seria um dia normal, de tréguas. Não uma trégua de discussões, porque nos cinco anos vividos juntos não havia brigas. Talvez fosse mais um assentimento silencioso do que uma trégua, naquele fim de semana, Fabiano não pediria mais que ela não o deixasse, para não ficar deprimido.

– Acabei de saber que tenho direito a férias. Acha que seria possível vir comigo para a praia?

Teresa mergulhada em suas indecisões interiores foi pega de surpresa.

– Ah! Fabiano, não sei. Acho que não poderei. Quero dizer…

Era sempre assim. Teresa mergulhada em suas memórias e sonhos, não atinava a dificuldade de comunicação com Fabiano. Ele, por sua vez, ainda tentava salvar aquele casamento morno. Ambos encolheram-se em seus cantos favoritos. O silêncio ficou alto na casa.

***

Naquela tarde Fabiano resolveu passear pelo shopping. Não tinha intenção de comprar. Queria dar descanso à mente febril. Olhava uma vitrine, sem ver.

– Olá!

Virou-se e deu com Amanda. Uma colega de faculdade. A primeira namorada. Ela estava bela, alta, os cabelos escuros faiscavam à luz da vitrine da loja. Sorria para ele. Estático, não conseguia encontrar palavras.

— Perdeu a língua – brincou. Seu humor um tanto infantil, mas que o encantara à época do namoro continuava lá.

– Não… Claro. Como vai Amanda? Quantos anos…

– Vinte. – Respondeu, simplesmente.

– Parece que o tempo não passou para você.

– O que há? Está se sentindo velho?

Ele a observou longamente. Lembrou-se dos tempos de faculdade, da turma, dos sonhos.

Fabiano pediu, sem muitas esperanças:

– Você gostaria de vir comigo este fim de semana a uma bela praia, onde se pode descansar, mourejando ao sol.

Ela observou a mão esquerda.

– Ela não quer ir?

– Nem sei se ainda tem ela. – Respondeu.

Talvez fosse imaginação dele, mas Amanda parecia quedada a aceitar. Na maior parte do tempo, Fabiano tentava não pensar em seu casamento, mas, ocasionalmente, as memórias surgiam como quadros, delineadas com ângulos agudos. Aquele era um desses momentos. Mordeu os lábios e virou o rosto, para que Amanda não percebesse seus sentimentos.

– Pois hoje você está com sorte! Aceito passar o fim de semana na praia e mourejar no sol, sentindo a quentura na pele e… na alma. – Completou, com uma ponta de malícia.

Após um momento de surpresa, Fabiano saiu do marasmo, estendeu os braços e abraçou Amanda. Foi o suficiente para que entrasse em desespero. Custava-lhe falar com Amanda sobre seu casamento frustrado. Percebeu-se contando como o casamento havia sido maravilhoso no início, posteriormente a rotina, o desapego de Teresa e o completo distanciamento de ambos.

– Hoje você não tem esperança nenhuma, nem ânimo para se distrair, mas na praia terá, com certeza – murmurou maliciosamente. – Terá um fim de semana onde lutaremos muito. E, provavelmente, perderá. Mas no final poderemos ambos, ser ganhadores dessa batalha.

***

Em casa não houve perguntas. Naturalmente Teresa percebeu algum segredo, mas sequer lhe interessou saber.

Bocejou.

– Está bem. Vou deitar. Amanhã quando sair para a praia feche a porta. Leve a chave porque terei o dia inteiro para o SPA.

Ela lhe passou o jornal, e Fabiano leu a notícia sobre o tempo. Estaria chovendo na praia, pela suposição dos especialistas no assunto. Deu de ombros. Iria mesmo assim.

A porta do quarto se fechou atrás de Teresa. Ela estava totalmente enjoada daquele casamento. Pensou em Leandro e anteviu o encontro dos dois no dia seguinte. Contaria seus planos de separação. Pouco importava se Leandro não quisesse assumi-la em compromisso. Estava totalmente deprimida com união entre dois seres sob o mesmo teto. Ficaria muito mais fácil se Leandro aceitasse a relação daquela forma. Teria tempo para colocar ordem ao caos invasores de seu cérebro. Já não se preocupava com os sentimentos de Fabiano. Ele parecia uma múmia. Chegava em casa do trabalho, tirava os sapatos e largava-se no sofá em frente ao televisor. Ela era a empregada que o servia o tempo inteiro: café matinal, almoço e jantar. Na cama deitava-se, deixando o banho para a manhã. Jamais se acostumara com aquela rotina. Sonhava um homem amoroso chegando em casa com flores, abraçando-a e convidando para saírem. Ele tomaria um banho, um perfume masculino marcante, um sorriso nos lábios, a tomaria pelo braço e sairiam a respirar o ar da noite, onde a lua redonda e azulada encimaria o amor deles.

Rolou na cama soltando as lágrimas represadas. Dormiu um sono sobressaltado.

***

Amanda o aguardava feliz, olhando o céu cinzento, mas saboreando o retorno de Fabiano. Fechou a porta quando o Corolla estacionou ao rés da calçada.

Entrou no carro que deslizou lentamente, após se beijarem rapidamente no rosto. Amanda o olhou, a revelação do dia anterior, veio-lhe à cabeça, mas ela também não estava com vontade de ter um relacionamento antiquado. Não queria noivado, casamento, vestido de noiva. Queria viver e ser feliz.

A chuva começou a cair torrencialmente. Fabiano olhou para Amanda. Um olhar de pergunta. Ela colocou sua mão sobre a dele. O consentimento foi tácito. O carro continuou a rolar pelo asfalto molhado. Finalmente Fabiano tinha certeza de que seu casamento havia acabado.

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