PIRANHAS NÃO ATACAM

piranhas

Terminado o almoço, foram se refestelar nas redes dispostas no avarandado, na parte da frente da casa.

Anita, uma bela paraguaia de longos cabelos lisos e negros, sorvia o café, enquanto Juanito, filho dela, e o garoto Marco, morador da fazenda vizinha e amigo do menino, rodopiavam como piões debaixo da chuva.

O tempo mudou. O sol voltou para “estalar mamonas”, como se dizia por lá. A umidade do ar estava intensa. Sérgio foi tomado por uma sonolência. Tirou a camisa, acomodou-se em uma rede e dormiu até às quatro da tarde. Acordou, ainda sonolento, e foi continuar aquele cochilo na cama, sob o ventilador de teto no seu quarto.

A noite clara de um luar redondo e um céu salpicado de estrelas foi o espetáculo após o entardecer.

Anita os chamou para o jantar lá pelas oito da noite. Outra vez puderam sentir o cheiro gostoso do feijão ao entrarem na ampla cozinha e passarem para a copa. A toalha xadrez, estendida sobre a mesa, e pratos esmaltados com canecas de mesmo material os aguardavam. Pela memória de Sérgio passou fugaz lembrança da meninice.

Anita serviu os pratos. Passou faceira, roçando em Sérgio, deixando um leve cheiro de alfazema. Olhou-a de soslaio e apercebeu-lhe o sorriso no olhar.

Comeram e voltaram para a varanda. Agora era o cheiro do café trazido por Anita a inundar o ambiente.

Ficaram sentados, sentindo a brisa fresca da noite. Os peões foram chegando, a viola debaixo do braço. Uma harpa carregada com facilidade. Sentaram sob as árvores e choraram a guarânia. Anita passou por eles e se juntou aos peões. Sua voz soou afinada e sentida, ao som da música paraguaia. Sérgio a admirava, embevecido, enquanto ela cantava para ele. Ficaram ali até perto da uma da manhã. Aos poucos, retiraram-se um a um até ficar silêncio quase completo, só os ruídos noturnos.

No dia seguinte, Sérgio acordou com o sol esquentando seu rosto e lavando o quarto de luminosidade.

Desceu para o desjejum, já sentindo o odor do café se desprender do coador. Mesa posta, sem sinal de Anita. Já ia se servir de café, quando ela apareceu. Os cabelos muito brilhantes escorriam-lhe pelas faces. Percebeu um olhar guloso sobre ele.

— Posso servir seu café?

— Claro!

Ela estendeu uma bandeja com alguns bolinhos, cheirando a queijo.

— É a chipa paraguaia. Prove! Vai gostar.

Pegou um biscoito e comeu. Degustou-o com prazer. Os gostos do queijo e do polvilho formavam mistura perfeita.

Saiu para o pátio e encontrou Cláudio, o piloto, tentando acertar os pés nos estribos de um cavalo pangaré. João Luís, o copiloto, por sua vez, nem sequer conseguia subir no cavalo.

Juanito apontou para um terceiro cavalo.

— Este é para o senhor.

— Eu? Não! Eu não sei montar. Falou Sérgio, assustado com a possibilidade do ridículo.

— Nem nós. Afiançou Cláudio.

Não precisava nem me dizer.

— Mas eu prefiro nem tentar. Falou em voz alta.

— Por que não? É uma aventura. Ficará na varanda vendo as horas se arrastarem? Comentou Anita, aparecendo na porta e ficando numa posição engraçada. Encostada no batente da porta, colocava o pé direito sempre no joelho esquerdo e, debaixo daquela saia floreada e rodada, parecia não ter uma perna.

— Não enfrentarei este calor abrasador, resmungou Sérgio, furtando-se àquela situação incômoda.

— Calor, senhor? Estamos no tempo das chuvas. Ironizou o garoto Juanito.

— E daí? Cláudio contestou. — Para mim, o calor está intenso.

— Como faço com a rédea? Questionou Sérgio, demonstrando sua total inabilidade.

— Segure-a firme, senhor. Se quiser que o animal vire para a esquerda é só puxar as rédeas para o lado esquerdo. Se para a direita, basta puxá-las para o outro lado. Falava, fazendo os movimentos, e a cabeça do cavalo o acompanhava. – Puxando as rédeas com firmeza pra trás o bicho para na hora. Finalizou Juanito, em orientação aos três. Em seguida, montou seu cavalo em pelo, com rapidez. Aquilo fez os três se sentirem como idiotas.

— Vou mostrar a fazenda.

Juanito andava cauteloso para não assustá-los. Mantinha seu cavalo num trote calmo.

Seguiram pela estrada até perto do mangueirão, depois por uma trilha através do pasto. Após quinze minutos a casa sede já desaparecera de vista. Ao ver água, Sérgio tentou parar o cavalo, puxando as rédeas como Juanito ensinara, no entanto o animal seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido.

No início, as águas chegavam um pouco além das patas dos animais, mais adiante, porém, atingiam os estribos e eles se assustaram, enquanto Juanito se divertia com o medo dos três noviços.

Vieram à memória de Sérgio as histórias sobre piranhas no Pantanal e o medo quase se tornava pavor.

Os cavalos seguiam o animal montado por Juanito e a água chegou-lhes no peito. Sérgio exercitava o controle do medo. Pelo menos estava de botas, tentava se consolar. Quando saíram na outra margem, respirou fundo, agradecendo aos santos nada ter acontecido. Juanito caminhava tranquilo, sem perceber o desespero de Sérgio em certos momentos. Afinal, aquilo era seu dia a dia.

Subiram a colina e do topo enxergaram a casa sede e boa parte da fazenda. O gado pastava nos pequenos espaços secos entre os alagados.

Seguiram em frente, fazendo a curva da estrada. Os cavalos dos três continuavam a trotar, importando-se pouco com outros comandos.

Sérgio respirou, sentindo-se a salvo.

— Está tudo bem, agora? Indagou Juanito com aquele olhar matreiro, escondendo o riso.

Sequer lhe respondeu. Seguiu seu caminho.

Já andavam há uma hora, quando os três novatos já sentiam dor no traseiro e formigamento na virilha. Juanito então voltou para casa, seguindo pela velha estrada abandonada, para cortar caminho. Sérgio ficou feliz, por não avistar qualquer rio.

Na manhã seguinte, o velho escritor levantou descadeirado. Aquilo era resultado da aventura do dia anterior. Decidiu não cavalgar mais naquele dia.

Desceu para o desjejum, sentindo o cheiro das lembranças infantis. Como sempre, lá estava Anita para servir o café e muito mais, se ele pedisse.

Bebeu café com leite e comeu um pedaço de queijo curado. Ainda lançou mão de duas chipas e as saboreou. Levantou-se da mesa. Percebeu a frustração dela, mas não pretendia despertar qualquer esperança.

Foi à varanda em busca de Cláudio e João Luís.

— Onde eles estão? Indagou a Juanito.

— Foram embora. Levantaram voo lá pelas sete da manhã.

Sua frustração ficou patente. Juanito perguntou, constrangido.

— Você também iria?

— Não. Ficarei aqui por uns tempos. Objetou a contragosto.

— Quer andar a cavalo? Cogitou Juanito.

— Não! Hoje não. Fiquei dolorido.

— Ahn! Juanito em resposta, sem saber como satisfazê-lo. Optou pela charrete e foram até a barranca do rio Paraguai.

A chalana encostada à margem do rio. Convidaram-no para embarcar. Era um barco confortável com algumas redes dependuradas. A chalana singrou tranquila nas águas do Paraguai. Apreciou, maravilhado, a beleza daquele Pantanal.

Após saborear o almoço e tomar duas cervejas bem geladas, preferiu deitar e tirar um cochilo. Nem mesmo o traseiro dolorido do dia anterior sentia mais. Aproveitou o vento criado pelo navegar da embarcação e afundou num sono sem sonhos.

Quando acordou o calor já amainara, o rio estava mais escuro. Ao marulhar das águas, as aves típicas do Pantanal, brancas de pernas longas, levantavam voo em bando, procurando um lugar para se acomodarem no cume das árvores. Eram os tuiuiús.

Avistou ao longe a sede da fazenda, recortada e sombreada pelo lusco-fusco daquela hora.

Ao chegarem às margens, lá estava o jipe que os levaria à fazenda.

De volta para a casa sede, Anastácia e Anita apareceram na porta entreaberta, perguntando se ele apreciara o passeio. Sorriu-lhes apenas, como resposta.

— O senhor vai jantar agora?

— Não, Anastácia. Não vou comer nada. Quero apenas um bom banho e deitar.

— Mas o senhor dormiu a tarde toda!

— Esta terra tira as minhas forças.

Percebeu um sorriso de galhofa no rosto de Anita. Deu de ombros e subiu as escadas, sentindo dor no traseiro e a virilha.

Acordou no meio da noite com alguém bulindo em seu membro. Sentiu o cheiro de alfazema. As carnes macias de uma coxa se meteram entre suas pernas, entreabrindo-as, enquanto sentia o quente da língua no peito. Enlouqueceu de prazer.

Pela manhã estava sozinho na cama.

Ainda sentia o cheiro de alfazema no travesseiro.

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