Olhar Azul

olhos azuis

 

Era um dia lindo, quente e seco, prenúncio de verão. Em Curitiba, surgiam as primeiras árvores floridas. Eram as buganvílias que tomavam a cidade. Na estrada para as praias eram os manacás da serra a colorir a floresta.

Agora estavam quase chegando. A estrada serpenteava. Os pequenos pomares se pintavam de botões de flores de laranjeira, odorificando o ar. De súbito, uma clareira entre as árvores, a vista diante dos olhos, a grande planície.

— Poderíamos continuar para sempre, mais e mais — até chegar à Terra do Nunca.

— Mas não vamos continuar. Vamos para Morretes, e estamos bem próximos. — O carro desviou e subiu uma pequena colina. As pequenas casas começaram a aparecer. Depois de alguns quilômetros atravessando a cidade, uma curva o grande e antigo solar surgiu diante deles. A casa de dois andares, ficava no alto de uma pequena planície afastada da cidade. Flores de lavanda cresciam logo após no gramado. Ninguém havia se aventurado plantar lavanda naquela região. Era uma experiência inédita, mas adorável. O odor suave recendia do campo.

Agora lá estava ela, seus pés pisavam a grama verde do jardim. A garota aparentava ter uns dezenove anos, olhos azuis que se assemelhavam ao mar do Caribe, usava um vestido branco de rendas que ia até os calcanhares. Era tão leve que flutuava com o vento, assim como seus cabelos cheios de caracóis dourados indo até as costas.

Sentou-se preguiçosa no tapete natural, olhou ao redor e pegou um ramo por dentre o gramado. O observou por algum tempo, levou-o à boca, mastigou distraída. Logo a seguir arrancou uma flor do vento e assoprou-a. As lumas voaram em círculos indo para longe. O vento as carregava cada vez mais altas. Abriu os olhos e deu um grande sorriso.

A família cheia de convenções retirava dela a liberdade de ser. Detestava o costume fundamental de sua classe social, o que significava frequentar locais onde se pudesse socializar, como: bailes, teatro e óperas. Não que desgostasse de teatro ou ópera. Tinha gosto refinado para literatura e apresentações teatrais, porém a obrigatoriedade a entediava. Não escolher suas amizades a irritava. Era julgada, repreendida.

Quando conheceu Tony ressurgiu a esperança de poder viver sob seus próprios julgamentos, não se importante com qualquer deslize ou ser alvo de críticas e fofocas familiares. Ele pensava como ela. Seriam felizes.

A menina levantou-se enquanto inalava o cheiro da lavanda, misturado com a garoa recém-vinda.

Abriu bem os braços e começou a dar giros, tentando se lembrar de uma música que já teria escutado em um lugar muito bonito. Seu riso preenchia o ar com tamanha pureza e alegria que alguns pássaros observavam do alto das copas das árvores o espetáculo. Seus pés pareciam flutuar à medida que dava passos graciosos e leves.

Sentia-se livre… Como jamais estivera…

Enquanto rodopiava, sentiu suas asas coloridas se abrirem num rápido movimento. Borboletas… coloridas, dezenas. Olhou para o céu mais uma vez. Nunca o havia visto tão de perto, parecia até uma ilusão estar parada ali, em meio à natureza. Normalmente, era proibida de entrar em seu mundo. Apreciava cada momento e não se arrependia de ter desrespeitado regras.

Sentou-se preguiçosa no tapete natural, olhou ao redor e pegou um ramo por dentre o gramado. O observou por algum tempo, levou-o à boca, mastigou distraída. Logo a seguir arrancou uma flor do vento e assoprou-a. As lumas voaram em círculos indo para longe. O vento as carregava cada vez mais altas. Abriu os olhos e deu um grande sorriso.

— Tony… — sua voz soou como uma canção — você me prometeu que passaríamos a lua-de-mel aqui…

— É um lugar romântico. Será difícil dizer aos meus pais que não viajaremos para a Europa…

Olhou-o pesarosa. O olhar azul reluziu. Fez menção de chorar.

Ele a tomou nos braços, rodopiou com ela. — Você venceu! Ficaremos aqui. — Deu-lhe um beijo doce nos lábios e a colocou novamente no chão. — Devo desfazer as malas. — Voltou para o casarão.

O olhar pesado deixou-lhe e uma calmaria muito forte a invadiu. Queria ser livre e havia conseguido! Começou a andar vagarosamente, sem ritmo definido, mas com a esperança de um novo futuro.

Estava livre… Assim como as plumas da flor do vento que dançariam uma eterna dança na brisa suave.

Havia esperança.

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