A Chácara Dois Pinheiros

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       Por volta das dez horas, já vestida e tendo tomado seu desjejum, encontrava-se no jardim podando suas rosas, quando ele chegou. Estava feliz como uma criança e, diversamente da rotina, acenou para a Sra. Lourdes, a vizinha da direita, que se divertia com o pequeno Rodrigo, refestelada em sua cadeira, ao sol da manhã. Ainda assombrada com tanta amabilidade a Sra. Lourdes acenou para ele entusiasmada.

       O trator que passava desde as primeiras horas da manhã, aplainando as ruas do bairro, cessou seu ruído. A manhã ensolarada ficou abençoadamente silenciosa. Hélio desceu da cabine do jipe e saltou para o chão, caminhando ereto e nobre em sua direção.

       – Não queria interromper você, querida, mas tenho uma novidade que a fará extremamente feliz – ele foi explicando.

       -Sim… – Esperando que a novidade fosse realmente excepcional. Todo ele esbanjava felicidade.

       -Tenho algo a lhe mostrar. Se me acompanhar terá uma surpresa agradável.

       -De jipe?

       -Sim. Importa-se?

       -Absolutamente. Quer ir já, ou toma um chá comigo?

       – Melhor irmos já. Depois tomamos o chá, se for o caso.

       Ela tirou as luvas e o avental. Entrou em casa para deixá-los. Voltou rápido. Ele já estava dentro do jipe a esperá-la.

       Viajaram pela Estrada do Papel até o Triângulo. Entraram para uma estrada secundária, de terra. De repente ela avistou uma colina com dois enormes pinheiros plantados. Lá embaixo uma mata fechada e, mais abaixo, uma cachoeira de águas cristalinas. Foi uma visão de beleza inenarrável. Ele sempre soubera o quanto ela gostava do campo, mas até aquele momento jamais falara em adquirir um pedaço de terra.

       – Um cliente não tem como pagar meus serviços advocatícios e me ofereceu esta gleba…

-Maravilhosa, Hélio. Você vai aceitar?

– Se você quiser?

– Se eu quiser? É claro que eu quero!

       Ela sorriu. Sempre gostava de ver Hélio no trabalho árduo da semeadura e a alegre determinação que ele esbanjava.

O que fora uma propriedade negligenciada, agora se tornava produtiva. Troca de cercas e mourões, pintura branca nas bases das árvores, a construção do pontilhão sobre o riacho que cortava a propriedade e ia encontrar-se com o rio que desaguava em cachoeira, arar a terra, plantar o arroz, o feijão, a horta.

Não se lembrava de um único dia de folga, desde o início da aquisição da chácara. Os finais de tarde eram passados na propriedade.

Depois que construíram a casa então, não mais deixaram de ficar até altas horas trabalhando, quando não resolviam pernoitar. Ele acendia o fogão de lenha e ela fazia a sopa. Na manhã seguinte com a brasa ainda acesa, era só colocar gravetos, alguns tufos de jornais e atiçar o fogo. O café saía quentinho e cheiroso para o desjejum da manhã.

       Dois anos depois, a chácara tinha uma alameda ladeada por ipês roxos e amarelos, o gramado da entrada aparado, o pessegueiro, a macieira, o parreiral dando seus frutos. Tinha sido arada e estava toda plantada. A colheita do arroz e do feijão era para breve. Hélio, no entanto, não estava satisfeito. Queria construir a casa sede no alto da colina, ao lado dos pinheiros e deixar aquela para o caseiro, agora contratado.

       Sonhava sentar-se na varanda e olhar o bosque todo limpo, com suas árvores circundadas por pedras brancas e a mesma pintura a meio-pau. Lá embaixo, antes da cachoeira, e às margens da bacia formada sobre as pedras, o jardim plantado por ela, onde já se viam, à volta dos xaxins, bem-me-queres, lírios da paz e flores silvestres. Era um arco-íris de plantas.

       Começou a comprar o material de construção e guardá-lo num depósito construído para esse fim.

       A casa foi erguida em seis meses. Um ano depois estava toda mobiliada e bela, encimando a colina dos dois pinheiros.

Naquela manhã ele chegou exultante. O irmão ia casar-se e eles seriam os padrinhos. Decidiram ir à capital comprar roupas para o evento. Marcaram a viagem para o dia seguinte.

       O dia continuou sua marcha e a manhã terminou, preenchida de pequenas e rotineiras tarefas. Após o almoço retirou a valise do armário e colocou as roupas necessárias para uma viagem rápida. À noite o sono não foi sossegado, havia uma excitação incomum.

       Finalmente amanheceu. Estava sentindo a cabeça meio zonza pela noite mal dormida. Teria tomado um chá e depois ido para a cama por mais algumas horas, não fosse o compromisso da viagem.

       A curva apareceu. Ele não conseguiu tangenciá-la e o carro saiu de traseira, caindo na depressão que vinha margeando a estrada. Sentiu-se sendo atirada fora do veículo, após muitas batidas na cabeça.

       Acordou tonta, procurando com o olhar o resultado daquilo.

       O corpo dele estava caído, emborcado no terreno. Havia um silêncio sepulcral, apenas quebrado pelo barulho do limpador de para-brisas, que ironicamente continuava a limpar o vidro da chuva fina que caía.

       Ergueu o corpo ainda dolorido e foi até ele. Hélio continuava lá sem se mexer. Tentou reanimá-lo, mas percebeu o inevitável.

       Foi levada ao hospital para curativos leves. Algumas escoriações nos joelhos e na testa.

       Voltou para casa. O vestíbulo estava cheio de pessoas. Foi até o quarto pegar um xale, no qual se enrolou, encolhendo-se no canto da sala. Estavam todos a esperá-la para seguirem com o féretro ao cemitério municipal. Seguiu sem entender, como num pesadelo sem fim.

       A chácara foi seu último refúgio, para fugir dos curiosos. Os dias seguiam monótonos, vazios. Andava pelos cômodos da casa recém-terminada. Parou diante do espelho antigo que herdara da mãe e observou sua silhueta magra e abatida. Ouviu a chegada do carro, ainda no quarto de vestir. Seguiu para a porta, sem ânimo.

       Ele falava sem parar, até que ela finalmente entendeu a intenção de seu interlocutor. Pretendia adquirir a chácara, já que soubera que ela estava sem condições de continuar o trabalho do marido e teria que vendê-la de qualquer forma.

       Ela o olhou, inexpressiva. Perguntou numa voz monocórdia quanto ele pretendia pagar. Ouviu o valor. Não teve condições de avaliar sua correção. Concordou com o preço. Ele saiu da casa, vitorioso.

       Aquela seria a última noite a ser passada na chácara. A propriedade seria entregue no dia seguinte ao Dr. Rosauro, e ela voltaria a viver em sua casa na cidade.

       Sentou-se na varanda e olhou nostálgica para o bosque, suas árvores pintadas de branco até o meio. Lá embaixo o riacho em seu murmurar contínuo, indo despejar suas águas na pequena cachoeira. Ainda estava sentada na varanda quando ouviu o relógio dar quatro badaladas na madrugada.

 A chuva começou a cair em pingos grossos, levantando o cheiro de terra. O tempo refrescou. Ela apertou a manta à volta do corpo e se encolheu na rede. Ouviu o pio de uma coruja, talvez se escondendo da chuva. Pendeu a cabeça e dormiu suavemente, embalada pelo som da natureza.

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