Primeira Inspiração

garota na chuva

            Envolto pelo nevoeiro espesso e úmido, e sob o gélido vento sul, o lento e velho ônibus papa-filas finalmente enfrentou o último declive em direção à indústria. Eu peguei o ônibus às sete horas e cinco minutos, como religiosamente fazia todos os dias. O coletivo chegou ao portão da fábrica e as Indústrias Klabin de Papel e Celulose apareceram em toda a sua majestade. O parque industrial era imenso, o maior da América Latina, segundo seus proprietários.

            ¾ Começou a chover! ¾ Avisou o motorista aos passageiros, que desciam às pressas, procurando abrigo sob a marquise do prédio da Administração.

            Limpei uma parte do vidro da janela, todo embaçado pela condensação da umidade, e olhei para fora, esperando que os passageiros descessem naquela sofreguidão de sempre. Vi os pingos das chuvas caírem sobre o calçamento e formarem pequenas poças d’água. O tempo piorava, transformando a manhã de neblina num dia encharcado e triste. O frio aumentou consideravelmente.

            Ainda estava observando através do vidro quando ouvi o motorista.

            ¾ Ei, garota! Não vai descer?

            Desci apressada. Ainda precisava bater o cartão-ponto. O relógio marcava sete horas e quinze minutos. Fui rápida, antes que ele ultrapassasse o horário. Não queria ver aquela tinta vermelha, imprimindo atraso em meu cartão. Não, depois de ter levantado cedo naquele dia horroroso.

            ¾ Com licença ¾ disse para o homem à minha frente ¾ preciso chegar até o outro prédio.

            ¾ Ah, claro. ¾ Ele afastou-se da porta, cedendo espaço para eu passar.

            Saí correndo debaixo d’água, que agora começava a cair torrencialmente.

Cheguei até o prédio da Produção molhada até os ossos. Recebi uma toalha de Zezinho, um colega de trabalho que já havia se enxugado.

¾ Está um tempo horrível, não?

¾ Horrível! ¾ Comentei, enxugando-me rapidamente.

Dirigi-me para o banheiro feminino e guardei a toalha molhada. Voltei para a sala de escritório, tiritando de frio e espirrando.

¾  Ih! Você pegou um resfriado. Acho melhor ligarmos o aquecedor e você tentar se esquentar.

Cheguei perto do aquecedor e senti o calor aquecer todo meu corpo. A roupa molhada foi secando lentamente.

***

Eram sete horas e três minutos e lá estava eu esperando o papa-filas.

O dia estava frio, mas o sol já tentava aparecer para dissipar a neblina intensa. A fila de pessoas naquele dia estava maior e eu me coloquei no final dela, a esperar pacientemente a chegada do ônibus.

Entramos e cada qual foi tomando assento. Eu permaneci parada no início do corredor, procurando lugar. O coletivo estava lotado e a minha timidez fez com que sentisse um aperto no estômago.

Vi um banco vago. Não quis olhar o passageiro sentado. Tinha medo de sentar ao lado de um estranho.

Já acomodada, ousei observar meu companheiro. Ele me olhava e sorria com todo o rosto. Os olhos azuis chegaram a me ferir de tão claros. Senti o rubor cobrir minhas faces, imediatamente. Percebendo meu encabulamento, comentou.

¾ O dia será lindo, hoje.

¾ Acho que sim… ¾ respondi, num sopro.

Ele sorriu, novamente, e perguntou:

¾ Sempre pega o papa-filas nesse ponto?

¾ Sim ¾ falei.

¾ Este é o último ponto, não?

¾ É…

¾ O ônibus sempre chega lotado aqui?

¾ Sempre.

¾ Se quiser, nos próximos dias posso guardar um lugar para você. Assim não corre o risco de ficar em pé.

¾ Vou ficar muito agradecida ¾ olhei para ele sorrindo.

¾ Sabe que fica muito bonita, sorrindo assim.

Novamente enrubesci e ele distendeu o sorriso.

***

Entrei no ônibus e o procurei com o olhar. Ele fez sinal para que sentasse ao lado dele. Feliz, encaminhei-me para lá.

Naquele dia ele contou que estava fazendo estágio na Klabin. Havia terminado o curso de engenharia no ano anterior e agora esperava que, após o estágio, fosse contratado pela indústria. Fiquei encantada em saber que um homem de vinte e cinco anos tivesse tanta gentileza com uma garota de apenas quinze anos e tão sem graça, como me sentia.

Ele falava animadamente sobre a capital. Curitiba era uma cidade linda e florida, apesar do frio. Quis saber se eu conhecia a capital. Quando lhe disse que ainda não conhecia, incentivou-me a visitá-la.

Nos dias que se seguiram ele sempre reservava o lugar ao seu lado para mim. Eu me encantava cada vez mais com sua atenção e amabilidade. Os dias de frio deixaram de ser tristes e eu passei a esperar por todas as manhãs.

Certo dia escrevi um poema inspirado naquele sentimento que meu coração começava a sentir. Professor Marenda, que ministrava aulas de português para a quarta série do ginásio, ficou entusiasmado com a minha verve poética e declamou o poema para toda a sala ouvir. Incentivou-me a escrever, dizendo que eu tinha chances de ser uma poetisa.

No dia seguinte, um sábado lindo de sol, decidimos ir ao clube encontrar com a nossa turma de amigos.  Maria, minha irmã, não se conteve e propalava a todos a minha verve poética.

Aos poucos fomos nos absorvendo pelas brincadeiras e decidimos usar os barcos para o passeio no lago. Aquilo apresentava um encanto especial às nossas excursões ao clube. Fomos em bando na direção da casa de barcos. Ao entrar me deparei com ele. Estava acompanhado de uma bela moça. Era loira e esguia. Os cabelos lisos balançavam sob a brisa da tarde invernal. Encolhi, ao perceber que eles se encaminhavam para mim. Fui apresentada a ela como a garotinha amiga dele. Ela me foi apresentada como sua noiva.

O passeio de barco perdeu a luz. Não conseguia deixar de pensar em George e sua noiva. O tempo virou e começou uma chuva fina. Voltamos desiludidos. Deixei meus amigos sem explicação. Caminhei pela estrada comprida e molhada, que dava até as quadras de tênis. Fui até os portões que surgiram diante de mim. Saindo do caminho, atravessei o gramado e percebi os lírios encharcados, margeando a alameda. Passei por baixo das árvores e recebi pingos grossos das folhas sobre minha testa.  Em meio à chuva resolvi retornar à sede do Clube, mesmo correndo o risco de encontrá-los novamente. Senti o eco das batidas de meu coração como um tambor e as lágrimas desceram abundantes pelas faces, misturando-se aos pingos da chuva. Entrei no salão e me aproximei da lareira acesa. Ali estava mais aconchegante.

Tirei o casaco encharcado e aqueci as mãos inchadas e vermelhas do frio. Olhei ao redor e os observei sorrindo, embevecidos. Lá estava meu primeiro amor e minha inspiração. Agora se esfumava minha doce esperança e eu entendi a difícil dor do amor platônico.

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