15. A EMPRESÁRIA HOSANA

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O Bar do Sal é um café infame, localizado na parte menos favorecida de Curitiba, na Cidade Industrial. A polícia sempre alerta turistas a manterem distância da área.

 Joaquim Müller já está lá quando Hosana entra. Levanta-se e a cumprimenta.

— Agradeço por ter vindo — diz Hosana.

Os dois sentam.

— Vim porque você acenou com algum meio de obter meu contrato.

— Isso mesmo. O conselho está sendo estúpido e míope. Tentei persuadir todos eles, mas não quiseram me escutar.

Ele acena com a cabeça.

— Sei disso. Aconselhou a aceitarem o novo contrato.

— Isso mesmo. Mas eles não compreendem como seus gráficos são importantes para o nosso jornal.

Ele a olhava, perplexo.

— Mas se a maioria votou contra, como reverteremos isso?

— Só votaram contra mim porque não levam seu sindicato a sério. Se querem evitar uma greve prolongada, e talvez a morte do jornal, demonstrem que não podem ser desdenhados.

— Como assim?

Hosana convincente, mas um tanto nervosa:

— O que vou lhe explicar é confidencial, mas é a única maneira de conseguirem o que querem. Eles pensam que vocês estão blefando. Não acreditam que estejam determinados. Provem o contrário. O contrato de vocês termina à meia-noite desta sexta-feira.

— Isso mesmo.

— Eles esperam que vocês paralisem o trabalho calmamente. — Hosana inclina-se em direção a ele. — Pois não façam isso! — Müller escuta com atenção, enquanto ela continua: — Provem que eles não podem fazer o jornal sem vocês. Não se limitem a deixar o trabalho como cordeiros. Causem alguns danos.

Os olhos de Müller se arregalam.

— Nada muito grave — ressalta Hosana. — Apenas o suficiente para demonstrar que vocês não estão para brincadeira. Cortem alguns cabos, deixem uma ou duas rotativas fora de ação. Assim, eles aprenderão que precisam de vocês para operar as máquinas. Tudo poderá ser reparado em um ou dois dias, mas até lá vocês os terão assustado o bastante, para que recuperem o bom senso. Eles saberão com quem estão lidando.

Joaquim Müller permanece em silêncio por longo tempo, estudando Hosana.

— Você é uma mulher extraordinária.

— Nem tanto. Pensei muito no assunto.  Como já falei, vocês causam alguns danos, que possam ser reparados com facilidade e obrigam o conselho a retomar as negociações, ou podem deixar o trabalho em paz e se resignarem a uma greve prolongada, da qual o jornal talvez nunca se recupere. Minha única preocupação é proteger o jornal.

Um lento sorriso ilumina o rosto de Müller.

— Deixa eu lhe pagar um café, Sra. Chambelle.

***

— Estamos em greve!

Na noite de sexta-feira, um minuto depois da meia-noite, os gráficos atacam, sob o comando de Joaquim Müller. Retiram peças de máquinas, viram mesas cheias de equipamentos, ateiam fogo em duas rotativas. Um guarda que tenta detê-los é espancado. Os gráficos, que pretendiam de início deixar somente algumas máquinas fora de uso, vão se animando cada vez mais e tornam-se mais e mais destrutivos.

— Vamos mostrar aos desgraçados que não farão conosco o que bem quiserem! — grita um dos homens. — Não há jornal sem o nosso trabalho!

— Nós somos o Hora Certa!

Soam gritos de aclamação. Os homens ficam ainda mais violentos. As oficinas gráficas logo estão em destroços. Em meio ao tumulto generalizado, refletores se acendem subitamente nos quatro cantos. Os homens param, olhando ao redor, aturdidos. Perto das portas, câmeras de televisão registram o tumulto e a destruição. Há também repórteres dos jornais Tribuna e Gazeta, assim como de agências de notícias e também blogueiros de toda espécie. E pelo menos uma dúzia de policiais e bombeiros.

Joaquim Müller contempla a cena, chocado. Como chegaram ali tão depressa?

Enquanto os policiais se adiantam e os bombeiros acionam suas mangueiras, a resposta ocorre de repente a Müller e ele experimenta a sensação de que alguém desferiu um chute em seu estômago.

Hosana Chambelle armou tudo! Quando forem divulgadas as imagens da destruição, promovida pelo sindicato, não haverá mais qualquer simpatia por eles. A opinião pública se virará contra o movimento.

— A desgraçada planejou aquilo desde o início — reflete Müller com ódio.

As imagens vão ao ar pela televisão uma hora depois, enquanto as emissoras de rádio divulgam detalhes da destruição irresponsável. As agências noticiosas despacham o relato do incidente para várias cidades do exterior, descrevendo os empregados como violentos, que se voltam contra as mãos que os alimentam. É um triunfo de relações públicas para o Hora Certa.

Hosana preparou tudo muito bem. Antes, enviou secretamente alguns executivos do Hora Certa a São Paulo para aprenderem como operar as máquinas modernas, visando a ensinar os empregados não sindicalizados.

Com o sindicato derrotado e o caminho aberto para modernizar a tecnologia do jornal, os novos equipamentos começam a funcionar e os lucros surgem. Da noite para o dia, a produtividade aumenta em vinte por cento.

Providência seguinte, Ane foi despedida.

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