Areias mornas de Caiobá

   Natália olhava o mar de Caiobá. Sentada na sacada parecia ver a figura dele andando pela areia. Chegava a sorrir ao imaginá-lo acenando alegremente.             Ligou para Carlos Eduardo. Precisava ouvir sua voz. Ele costumava escutar música clássica no final da tarde. O som entrou pelo telefone. Era Debussy. Carlos Eduardo apreciava Debussy.            …

Primeira Inspiração

            Envolto pelo nevoeiro espesso e úmido, e sob o gélido vento sul, o lento e velho ônibus papa-filas finalmente enfrentou o último declive em direção à indústria. Eu peguei o ônibus às sete horas e cinco minutos, como religiosamente fazia todos os dias. O coletivo chegou ao portão da fábrica e as Indústrias Klabin…

NA VEZ EM QUE SE CHORA

Deitou-se no chão verdejante da mata, coberto de folhas amarelecidas pelo tempo, o queixo apoiado nos braços dobrados. A vista alcançava um declive suave. Mais embaixo, o declive precipitava-se, e ele podia ver a estrada, serpenteando através da plantação de trigo. Havia um riacho correndo junto à estrada e ele viu o galpão mais além…

A Chácara Dois Pinheiros

       Por volta das dez horas, já vestida e tendo tomado seu desjejum, encontrava-se no jardim podando suas rosas, quando ele chegou. Estava feliz como uma criança e, diversamente da rotina, acenou para a Sra. Lourdes, a vizinha da direita, que se divertia com o pequeno Rodrigo, refestelada em sua cadeira, ao sol da manhã….

Olhar Azul

  Era um dia lindo, quente e seco, prenúncio de verão. Em Curitiba, surgiam as primeiras árvores floridas. Eram as buganvílias que tomavam a cidade. Na estrada para as praias eram os manacás da serra a colorir a floresta. Agora estavam quase chegando. A estrada serpenteava. Os pequenos pomares se pintavam de botões de flores…

PIRANHAS NÃO ATACAM

Terminado o almoço, foram se refestelar nas redes dispostas no avarandado, na parte da frente da casa. Anita, uma bela paraguaia de longos cabelos lisos e negros, sorvia o café, enquanto Juanito, filho dela, e o garoto Marco, morador da fazenda vizinha e amigo do menino, rodopiavam como piões debaixo da chuva. O tempo mudou….

Mente da fome

  A tarde chegou de mansinho. O sol já se punha no horizonte. Somente eu continuava naquela caminhada. À medida que a tarde avançava e a noite enegrecia o céu, ficava mais inquieta. Andava sem rumo agarrada àquele breviário. Minha vida era me apegar a ele. Aquilo se tornara uma defesa. Sair para a rua…

Quando chove

Quando Teresa entrou, livro na mão, um sorriso a bailar nos lábios, o encontrou no lugar de sempre. – Poesias? – perguntou, espantado. Esboçando um leve sacudir de ombros, ela respondeu: – Estou tentando ler. Não foi isso que você sugeriu? Seria um dia normal, de tréguas. Não uma trégua de discussões, porque nos cinco…

Uma historia de paixão e desejo

Uma tarde se encontraram, em uma esquina da vida, olhares se cruzaram, sorrisos trocados. Aproximação perfeita se fez. Cumprimentos Arrepios. Mãos se roçaram. Novamente olhares quentes. O corpo ardeu. Surgiu um algo mais. De meros desconhecidos a cúmplices foi um pulo. Ele, alto, atlético bonito, encantador e articulado a fitava com ar de mistério Os…

NA VEZ EM QUE SE CHORA

— Deve haver alguém cozinhando lá embaixo. Ele pode estar na parte dos fundos, daí, não podemos vê-lo. — É engraçado como você sempre faz suposições… O olhar arguto da senhora esmaeceu. Calou qualquer comentário. — Ah! Agora estou enxergando. Abaixo da ponte. Eles vêm descendo a estrada, a dois quilômetros do topo do desfiladeiro….

Epistolario

Na primavera de 2001 ele descobriu que o amor crescia em seu ser, como acontece aos amantes daquela estação. Nada parecia aplacar aquele sentimento, nem mesmo seus encontros furtivos com as esquálidas garotas da sociedade curitibana. Maria Eduarda soubera, com sua inteligência arguta, envolvê-lo totalmente. Sob o fascínio daqueles longos cabelos negros e brilhantes, o…

Luz e sombras

A fachada de tijolos era perfeitamente alinhada à beirada da rua. Atrás da porta, no vestíbulo, eram deixados o guarda-chuva e o chapéu panamá. A direita era o lugar onde sempre comiam. O salão era imenso. À esquerda ficavam dispostos os estofados, proibidos de serem usados pelas crianças. Logo ao lado da extensa mesa de…