Contos

A Cidade Sensual

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Ele chegou à cidade. Buscava atividade empresarial. Era enigmático, frio, racional. Não pretendia passar muito tempo ali.

Foi à empresa, não encontrou o proprietário. Devia ter ligado. Parece que não gostam de trabalhar por aqui ¾ pensou.

Seguiu para o hotel. Somente amanhã ¾ dissera a secretária. O senhor não ligou ¾ complementou profissional.

Sua estratégia da surpresa caíra por terra. Queria cobrar aquele título. Seu cliente o abonaria se o intento tivesse êxito.

Saiu amuado. Voltou para o hotel.

Sentiu falta de companhia. Ligou a TV. O som encheu o quarto.

A televisão continuava a passar o jornal. Já estava cansado daquele marasmo. Cidade provinciana ¾ resmungou. Como não encontrar um empresário em pleno horário comercial?

Precisava tomar ar. Procurar o que fazer. Se é que haveria o que fazer.

Saiu para a rua. Não agüentava o hotel.

Crepúsculo. Noitinha chegando lentamente. Naquela hora que nem é noite nem é dia. No lusco-fusco que invade, mudando o cenário, como numa troca de roupa. Curitiba começa a se vestir de negro, tal qual mulher sensual, que escolhe suas jóias e brilha. No brilho das estrelas surge, orgulhosa. Esconde no escuro o seio de tantos segredos e enche-se de burburinho do ir e vir de automóveis. São seus amantes, perdidos na noite.

Por sobre o tapete escuro do asfalto ele caminha, como em êxtase. Não imaginava aquela transformação. Lembrou-se do amigo. Acho Curitiba a cidade mais feminina do Brasil. Havia rido do comentário. De dia não percebera, nem lembrara daquilo, mas agora…

O ar se encheu de perfume. Perfume de todos os tipos. Das outras – mulheres também – a busca de um gozo. Um gozo de amor efêmero talvez, ou em busca da fantasia do amor eterno. Que importava? Importava que a noite chegara e com ela a volúpia da cidade em viver seus amores, nos cantos, nos bares.

Caminhou errante à busca de nada e de tudo.

Rodopiava a bela cidade, soprando seu hálito aqui e ali. Ora encantava com seu sorriso faceiro, ora desencantava com seu desprezo altivo. Era ela a dona. Quem decidia a quem queria amar, a quem queria entregar suas carícias, seus dengos.

Sentiu-se amado, aconchegado. Esqueceu o compromisso. Caminhou lento, inspirando o ar da noite. Sentindo o abraço da cidade.

Qual gata acariciava sua pele como se fosse ele seu dono. Sentiu a brisa e o perfume envolvê-lo, num encantamento.

Lembrou outras palavras daquele outro apaixonado. Seus visitantes caem de amores por sua altivez. Sua descendência de europeus, carregada de conservadorismo, a destaca. Caminha nobre por seus recantos antigos, levando seus enamorados ao delírio do passado.

Observou seus casarões, suas tradições expostos numa luz de palidez amarela e deixou-se embalar por histórias de cavaleiros andantes, capas e espadas.

Lufada de ar. Resolveu esfriar. O vento soprou o frio do escárnio, como a desprezar aquele que não sabia estender-lhe tapete e oferecer lareira, vinho e paixão.

Ele sentiu e se encolheu. Entrou no restaurante. Primeiro avançou, conquistando o espaço da sala. Sentou no bar. Ambiente aquecido, música suave. Odores de perfumes, tapete, lareira. Sentiu-se aquecido novamente. Passeou seu olhar pelo ambiente. Encontrou-a.

Ela o olhava insistentemente. Ouviu, como num sussurro: Sou eu.

Os olhos escuros o encararam sérios, depois suavizaram como a contar-lhe um segredo.

Sentiu sobre os seus os dedos longos e acetinados. Era uma sensação estranha, de espectador e ator.

A mulher continuava a olhá-lo. Loura, esguia, os olhos escuros perscrutadores e indecifráveis. O vestido negro delineando o corpo. O longo pescoço branco rodeado pelo colar de pérolas.

Sentiu-se engolido por uma golfada de ansiedade. Quis fugir dali. Ela sorriu e envolveu sua nuca, num gesto de posse. Ficou quieto e deixou-se beijar. O hálito quente e sensual invadiu sua boca. Sentiu seu cheiro. Cheiro conhecido, impregnado em sua memória. Lembrou sua saída do hotel. Perdeu-se nas sensações daquelas mãos e do desejo daquele corpo, encostado ao seu.

Para o hotel? Não, para o hotel não ¾ pensou. Levou-a para um motel. Comprou flores, bombons.

Quarto de motel. Ela subiu na cama e o olhava, com aquele olhar onde bailava um meio sorriso. O vestido escorreu-lhe pelo corpo nu. Ficou mesmerizado diante daquela beleza alva. Sua fantasia adquirira carne e osso.

Ele começou a tocá-la. Os dedos acariciavam aquele corpo de pele acetinada e curvas moldadas.

A volúpia tomou conta de ambos. Amaram-se. Ouviu-a arfar sobre ele, depois sentiu-na deslizar satisfeita e ir deitar ao seu lado. Minutos depois ela levantou e escorregou pela banheira, chamando-o com o olhar. A água quente acariciou seu corpo e ele sentiu-na colar nele.

Novamente o queria e o ardor voltou a tomar conta de ambos. Penetrou-a, como louco várias vezes, até cair extenuado. Deitaram lado a lado sem nada dizer. Ficaram assim pela noite adentro. Dormiu satisfeito e feliz com aquela deusa em seus braços.

Acordou ainda na madrugada e não mais a encontrou. Saiu do motel sem entender. Buscou-a pelas esquinas e cantos da cidade.

Curitiba flutuava. Às vezes diáfana por dentre suas neblinas, envolvendo-o em seus véus e abraçando-o em suas sedas escorregadias. Noutras brincava com sua angústia, molhando o rosto dele com leves e finas gotas de orvalho e parecia rir de sua dor.

Manhãzinha, o sol ainda não havia despontado. Ele continuava a caminhar errante, em busca da amada.

A cidade agora dormia tranquila, como a trazer no regaço o cheiro daquele que a encantara em seu caminho sensual, noite adentro.