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Mudança da mentalidade do brasileiro

Muitas vezes nos perguntamos o porquê da corrupção no Brasil ter se tornado um costume sem travas. Acontece que isso defluiu da mentalidade do brasileiro. Vem do “jeitinho brasileiro”. O mau hábito inserto em nossa sociedade, onde as pessoas podem encontrar soluções que driblam as normas, ou criam artifícios de validade ética duvidável.

O jeitinho brasileiro também definido como “jogo de cintura, habilidade de se dar bem em situações complicadas e sair ileso” . Muitos consideram o jeitinho uma verdadeira qualidade do brasileiro, a qual demonstra criatividade e improvisação ao driblar normas e convenções sociais para encontrar alguma solução. Só que, ironicamente, ao resolver um problema, sempre cria outro. Mas como surgiu o tal jeitinho ?

A sociedade brasileira foi construída sobre bases falsas. Se pararmos para analisar a falta de honestidade da sociedade brasileira é um dado histórico. Decorre dos primeiros portugueses que aqui aportaram e se apropriaram das terras dos índios nativos. Construíram por meio da conquista da terra e saqueando os espaços ocupados pelo povo que aqui vivia. A inocência do nativo deu vaza à habilidade armada de um povo mais “evoluído” a tomar o que não lhe pertencia, mas que ao adonar-se dos terrenos, matando, queimando e tentando escravizar seus verdadeiros donos, sentiu-se driblando, com criatividade pessoas tolas e desprevenidas.

Ao seu tempo vieram os vínculos com o coronelismo, paternalismo ou pela troca de simples favores. No livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Hollanda, afirma-se que o indivíduo brasileiro teria desenvolvido uma histórica propensão à informalidade. Deva-se isso ao fato de as instituições brasileiras terem sido concebidas de forma coercitiva e unilateral, não havendo diálogo entre governantes e governados, mas apenas a imposição de uma lei e de uma ordem.

Inclusive a própria “independência do Brasil” de Portugal não foi nenhum prodígio de coragem, mas sim uma aceitação tácita da coroa portuguesa que um filho seu agora era o imperador de uma de suas colônias e tudo ficou como dantes. Portugal continuou a receber ouro brasileiro e as coisas se acomodaram. Daí a permissividade e a impunidade se revelaram possíveis.

O antropólogo Roberto Damatta, em sua obra “O Que Faz o Brasil, Brasil?” compara a postura dos norte-americanos e a dos brasileiros em relação às leis. Nos Estados Unidos da América, as leis não admitem permissividade alguma, e possuem franca influência na esfera dos costumes e da vida privada. Em termos mais populares, diz-se que, lá, ou “pode”, ou “não pode”. No Brasil, descobre-se que é possível um “pode-e-não-pode”, dependendo do “você sabe com quem está falando?”. Aliás, essa foi a atitude de D. Pedro I ao se fazer imperador do Brasil.

O grande problema não é a existência do jeitinho como ponte negativa entre a lei e a pessoa “especial” que dela se livra. Essa é a esperteza, a astúcia, muito confundida com inteligência que deu azo a muitos líderes negativos no Brasil, como foi o caso bastante próximo do ex-presidente Lula. Num estilo persistente e dando voltas nas disposições morais, éticas e legais esse indivíduo com um certo poder de liderança passa por cima de qualquer norma que não lhe traga sustentação aos desejos pessoais em detrimento aos sociais. Assim o direito pessoal tem, para esse indivíduo, sua família, seus amigos, correligionários, enfim, seus próximos, um peso superior ao direito da sociedade. Decorre daí, a lei sendo desmoralizada e quem a cumpre, estigmatizado como otário ou cidadão menor, sobre os quais esse indivíduo pode exercer seu poder.

(Este tema será retomado e continuado ao longo de cada post desta autora)

(em breve, além das palestras a autora escreverá o livro)